quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Solidão
Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que agente se impões, às vezes, para realinhar os pensamentos...
Isto é equilibrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impões compulsoriamente para que revejamos a nossa vida...
Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.
(Francisco Buarque de Holanda).
domingo, 20 de setembro de 2009
Mundo grande
(Carlos Drummond de Andrade)
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
FEEDBACK SONG FOR A DYING FRIEND
(Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá) © 1985 Soothe the young man's sweating forehead |
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Sem Controle
Pessoas erram. Pessoas falham, decepcionam as outras. Pessoas fazem coisas erradas nas piores horas. É isso o que faz delas pessoas.
O problema é que algumas pessoas gostam descontam as frustrações da vida em outras pessoas. Não necessariamente de propósito, mas apenas pra ter alívio. Essas pessoas podem ter motivos pra estarem atribuladas. O que eu não aceito é a necessidade de descontar em outras pessoas. Porém, dizem elas ou seus defensores, foi um momento de fúria. Fulano não queria machucar, nunca passaria pela cabeça dele fazer nada contra você.
Mas fez.
A pior faceta das pessoas que não se controlam é que elas se aliviam rápido. Depois de descontar sua raiva (de modo tão gentil quanto um cavalo) em outras pessoas, agem como se nada tivesse acontecido. E querem que, pra nós, nada tenha acontecido também. O que, pelo menos pra mim, é extremamente difícil, senão impossível. Até porque eu sou humano, também, e não sou obrigado a ser compreensivo todos os dias. E, mesmo nos meus piores dias, busco me controlar pra não ferir as pessoas que gosto. E inocentemente espero esse comportamento das outras pessoas que dizem gostar de mim.
Dizem que somos civilizados, que não vivemos em uma época em que resolvemos nossas frustrações na porrada (nesse caso, porrada figurada). Não sou um saco de pancadas, figurado ou não. Não tenho vocação pra descarga. Portanto, se precisar aliviar sua raiva, bata na parede. Ande. Corra. Ponha uma música bem alta. Ache um bar.
The Bard